TODO ANO
Todo ano eles fazem tudo sempre igual. Acordam num certo dia de manhã e correm intranquilos, ver a saúde dos alumbramentos do ano passado. Geralmente, as fantasias estão guardadas num lugar alto ou baixo, depende; em caixas, sacos, malas, alojadas em vãos da memória e do desejo, bem batendo nos corações futuristas, e esperando novos encantos que chegam semana a semana, antes do Carnaval.
Olhe a caixinha de fantasias de uma pessoa e você conhecerá melhor essa pessoa - e observo isso para além da noção muito intuída de que as fantasias comunicam exatamente o que a pessoa é, ou vem sendo. Falo num sentido mais prático e talvez poético, toda uma antropologia da meia rasgada, da calça manchada de cerveja, da ausência do pé direito de um sapato da marca Rainha, que não é meu, entre os ítens guardados.
Uma antropologia das porções de glíter que faltaram, das proporções dos shorts que não cabem mais, dos confetes ociosos que incharam de umidade ou de tristeza, certo bolor colorido que pede passagem para pernoitar. Uma cadeia de individuações, a que chama máscaras, o pensamento arborescente, como artefato individual.
Até aqui a caixa de fantasias é uma máquina que deseja, dormindo; um arquipélago na maré baixa; um motor sem testemunha. A partir daqui, todas formas de ser da caixa ficam entre a utopia e a máquina, do enigma à solução: o que tem na caixa de fantasias vai do mistério à fuga pro convívio, pro encontro, pra esperança erótica de que tudo vai se ajeitar.
E é aí, em algum lugar da semana anterior ou na semana mesma que a caixa, os sacos, as malas, os vãos de memória e de desejo, a câmara pulsante dos corações futuristas mudam novamente: viram portas para outra vida, onde o direito à alegria dissipa ou suspende afetos tristes.
Ver o que lavar, ver o que quarar, ver para onde ir, com que roupar ir, ver o mapa e a aritmética dos espaços, das pessoas, dos mitos, dos moinhos que nos pregam e nos despregam: uma geometria rigorosa e risonha e corajosa, de uma geografia do transe e de fuga pra viva mais vivida.
Durante a festa, a caixa é trânsito, e se expande pra a sala o quarto a casa inteira, como se não pudesse mais caber em si com as meias de jogador, as cartolas, as sombrinhas, as máscaras de papel machê, perucas de palhaço, botões, balaclavas, uma camisa de cetim.


